domingo, 7 de fevereiro de 2010

Vinho e saúde

PARA MEUS AMIGOS AMANTES, APRECIADORES E CURIOSOS SOBRE O VINHO





Vinho e saúde

Autor: Dr. Júlio Anselmo de Sousa Neto - Médico, professor de Neuroanatomia da UFMG
Embora só tenham sido confirmadas cientificamente no século vinte, as ações benéficas do vinho à saúde remontam a alguns milênios. Registros históricos confirmam que egípcios e gregos preconizavam o uso medicinal do vinho e no Talmud, escrito há 2.500 anos, consta a frase antológica: O vinho é o mais notável de todos os remédios; onde falta o vinho, os remédios se fazem necessários.
Sabe-se hoje que, realmente, algumas das muitas substâncias que compõem o vinho, possuem comprovados efeitos benéficos ao organismo. Vejamos quais são elas e seus efeitos.
No século vinte, sobretudo a partir da década de 1980, as notícias sobre os efeitos benéficos do vinho à saúde tornaram-se mais freqüentes na imprensa, graças ao acúmulo de evidências científicas mais convincentes. Devido à minha formação médica, interessei-me logo pelo assunto e, após algumas consultas à literatura especializada, conclui que o tema era controverso. Aliei-me ao amigo, também médico e enófilo, Dr. Ramon Cosenza e resolvemos tirar a essa dúvida. Fizemos uma vasta revisão (de 1964 a 1994) da literatura que resultou no trabalho intitulado Efeitos do vinho no sistema cardiovascular, publicado em 1994 na Revista Médica de Minas Gerais (No. 4, pgs 27-32).
Curiosamente, em 1993 enviamos esse artigo para publicação nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, revista publicada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, mas o dito foi recusado. Na carta em que justificavam a recusa, seus editores disseram que “a revista não aceita artigos sobre temas polêmicos”. Ora, a ciência pressupõe a polêmica e só avança graças a ela e, além disso, nosso artigo era uma revisão crítica sobre mas de trezentos trabalhos, dos quais citávamos cerca de 70 publicados em revistas médicas da mais alta respeitabilidade internacional, como o Lancet, o New England Journal of Medicine, o Journal of the American Medical Association, para citar apena alguns. Mais curioso ainda foi encontrar, com razoável freqüência nos anos seguintes, membros da diretoria daquela entidade na mídia exaltando os benefícios do consumo moderado de vinho no aparelho cardiovascular! Parece que, subitamente, o assunto deixou de ser polêmico!
Voltemos ao nosso artigo! Nele são relatadas as evidências científicas, ocorridas num período de trinta anos, que demonstravam os efeitos benéficos do consumo moderado de vinho à saúde, sobretudo ao sistema cardiovascular.
Várias das pesquisas citadas no trabalho foram feitas mediante estudos prospectivos em muitas e diferentes populações de vários países, envolvendo centenas de milhares de pessoas, e mostraram que o consumo moderado de vinho reduz de 30 a 50% risco de doenças cardiovasculares, em especial o infarto do miocárdio e os acidentes vasculares cerebrais (como a isquemia e o derrame cerebral). Isso explica porque em países onde há tradição do consumo constante e moderado de vinho o índice de mortalidade por essas doenças é menor. Na França, esse fenômeno foi chamado paradoxo francês, porque lá são maiores os fatores de risco: consumo de gorduras saturadas, tabagismo e sedentarismo. Curiosamente, as pesquisas mostram que o abstêmio primário (pessoa que nunca bebeu) também tem maior risco de doenças cardiovasculares do que o consumidor moderado de vinho.
Muitos desses efeitos se devem à ação do álcool e, portanto, não são exclusivos do vinho. O álcool consumido moderadamente eleva o bom colesterol (chamado HDL, de High Density Lipoproteins), reduz o mau colesterol (dito LDL, de Low Density Lipoproteins), diminui o risco formação de coágulos, resultando na redução da incidência de doenças cardiovasculares. Além disso, o vinho é rico em oligoelementos (existentes em quantidades muito pequenas no corpo), entre os quais destacam-se os íons cromo e o silício que possuem ação protetora contra aterosclerose.
Outros efeitos benéficos se devem, no entanto, a algumas substâncias “exclusivas” do vinho (não encontradas em outras bebidas alcoólicas) que são o resveratrol e os compostos fenólicos. Estes últimos englobam os ácidos fenólicos (ex: ácido gálico), os polifenóis (ex: taninos) e os flavonóides que incluem a catequina, os flavonóis (ex: quercetina e rutina) e as antocianinas (ex:cianidinol). Os compostos fenólicos e o resveratrol estão presentes principalmente nas cascas das uvas, sobretudo das uvas tintas, e possuem potente ação antioxidante (inibem reações de oxidação nocivas aos tecidos corporais), diminuindo a incidência da aterosclerose e da trombose.
É importante lembrar que o consumo moderado de álcool é definido como a ingestão diária máxima de 50 ml de álcool, o que equivale a aproximadamente 385 ml de um vinho com 13% de álcool por dia ou cerca de 1/2 garrafa de vinho ou três taças de 130 ml (ou 8 doses de um dosador de bebidas de 50 ml). Para a cerveja (± 5% de álcool), equivale a 1 litro (1 ½ garrafa ou 3 latas) por dia e para os destilados (± 50% de álcool), como o conhaque, uísque e vodca,. corresponde a duas doses diárias de 50 ml. Acima desses limites, deixam de existir os benefícios, e passam a acontecer os efeitos nocivos graves do álcool sobre o organismo, especialmente no fígado, o cérebro, o coração e intestinos.Não bastando todas essas informações auspiciosas, no final de 1996 foi publicado nos E.U.A. um interessante livro intitulado The Save Your Heart Wine Guide (de Frank Jones, editora Martin’s Press) que relata novas pesquisas que confirmam os efeitos já mencionados e relata a descoberta de outros efeitos do vinho, tais como: redução da velocidade do processo de envelhecimento, melhoria da atenção e a agilidade mental, redução da incidência de osteoporose e proteção contra certos tipos de câncer, como o de mama e de próstata. Em 1997 foi descoberto que o consumo moderado de vinho também pode prevenir a doença de Alzheimer (perda progressiva da memória até a demência total).
Recentemente, surgiram mais duas boas novas, uma delas, publicada na revista científica Alcholism: Clinical & Experimental Research, sobre um estudo realizado na Itália com 16.000 mil idosos, acima de 65 anos, que revelou que os consumidores regulares de vinho (até uma garrafa por dia para os homens, e a metade disso para as mulheres) têm menor incidência de demência do que os abstêmios e dos que bebem acima dos limites mencionados. Os resultados dessa pesquisa reforçam estudos anteriores que já haviam mostrado o efeito preventivo do vinho contra a demência senil e a pré-senil ou doença de Alzheimer.
A outra boa nova foi publicada na conceituada revista científica Nature, em seu número de dezembro de 2001. Trata-se de pesquisa realizada no Instituto William Harvey da Escola de Medicina da Universidade Queen Mary, em Londres, coordenada pelo Dr. Roger Corder. Esse estudo revelou mais um efeito do vinho na prevenção de doenças cardiovasculares isquêmicas, especialmente o infarto do miocárdio. A equipe do Dr. Corder verificou que o vinho tinto reduz o teor de endotelina-1, um peptídeo (substância formada por aminoácidos) produzido nas células das artérias que tem potente ação vaso-constritora (faz a artéria contrair) levando à oclusão das artérias portadoras de aterosclerose (placas de gorduras) e causando o infarto.
A benéfica diminuição dos níveis de endotelina-1 é provocada pelos polifenóis do vinho, substâncias provenientes das cascas das uvas e, portanto, existem em grande quantidade apenas nos vinhos tintos, pois só neles as cascas são utilizadas integralmente. A pesquisa foi realizada em células de boi e testou o efeito de 28 vinhos diferentes (23 tintos, quatro brancos e um rosé) e um suco de uva tinta. Os vinhos brancos e o rosé (que contêm pouco ou nenhum polifenol) não tiveram efeito sobre os níveis de endotelina-1 das células. Os vinhos tintos, ricos em polifenóis, provocaram a maior redução no nível de endotelina-1. O suco de uva tinta, apesar de também ser rico em polifenóis, reduziu o teor de endotelina-1 menos do que os vinhos tintos, sugerindo que o processo de vinificação pode modificar alguma propriedade dos polifenóis das uvas, tornando-os mais ativos. O tipo de uva utilizada no vinho também parece ser importante: quatro dos seis vinhos mais efetivos eram feitos de uva Cabernet Sauvignon.
O estudo sugere novo mecanismo para o efeito preventivo do vinho contra as doenças vasculares isquêmicas. Outras pesquisas atribuíam-na às ações do álcool, dos compostos fenólicos, do resveratrol e dos íons cromo e silício presentes no vinho. É provável, portanto, que os benefícios do vinho se devam à combinação de diferentes mecanismos, alguns ainda desconhecidos.
Mais recentemente vários trabalhos científicos relataram outras propriedades benéficas do vinho, a saber:
•Proteção contra a hipertensão arterial e sua redução quando já instalada.
•Proteção contra diabete do tipo adulto.
•Proteção contra úlcera péptica.
•Proteção contra degeneração macular da retina.
•Melhoria da atenção e a agilidade mental.
Sem dúvida, essas notícias constituem um motivo para se beber vinho, mas mesmo sem elas, já teríamos motivos de sobra para continuar a fazê-lo!!!